O dia parecia triste e solitário. Emburrado e fechado, as pessoas na rua não mostravam mais seus sorrisos. Era uma atmosfera pesada e incompatível. Ou talvez não fosse nada disso. Talvez esta percepção esteja baseada apenas no modo diferente como ele via a vida. Sabia que há muito sua vida era apenas um mosaico mal-composto sobre um grande fundo branco insensível, como fotos de momentos isolados atiradas sobre o vazio, o nada, a dor e o tédio.
Ele aprendera de modo duro a viver. Criara uma casca onde se escondia e se defendia. Apanhara tantas vezes da vida que criou seu próprio escudo. E ali, dentro da casca, sua vida era diferente. O mundo era diferente. Ali dentro ele trazia consigo pequenos frascos que o ajudavam a caminhar. Trazia uma felicidade que produzia naturalmente, com aquilo que o mundo lhe dava. Se o mundo só oferecesse coisas dolorosas, ele ria da dor. Às vezes, podia estar feliz por algo, ficar imediatamente triste por entender que aquilo não era verdade e depois rir consigo mesmo, gargalhar de sua própria dor. Trazia também uma enorme autoconfiança. Num mundo onde os ataques eram frequentes, onde durante várias vezes já se percebera sozinho, ele aprendeu a amar a si mesmo como a ninguém, a entender a si mesmo. Aprendera a confiar em si mesmo. Numa noite fria e triste de terça-feira, cantava, pra tentar afastar a dor: "se você quiser alguém em quem confiar, confie em si mesmo". Trazia, claro, o amor pela música. A música era o bem mais precioso que ele tinha. A música era o óleo que fazia com que sua vida pudesse avançar. A música era tudo. Tinha o amor. Amava incondicionalmente. O amor lhe causara tanta dor, machucou-o tanto que ele aprendera a amar ainda mais. Era um paradoxo que para ele fazia todo o sentido. De tanto que o amor o machucara, ele passou a amar o amor, passou a amar o fato de amar. Ele amava amar. E, o último frasco era a esperança. Recitava para si mesmo, todos os dias, ao acordar: "É muito provável que este dia acabe ruim, do mesmo jeito que começou. É muito provável que eu volte para esta cama a noite com as mesmas dores, os mesmos problemas, talvez até mais. Mas, eu tenho certeza que em algum dia as coisas mudarão. Porque é assim que tem que ser. Algum dia, que não sei como, onde, quando, com quem ou porque tudo vai mudar. E a dor e o sofrimento não alcançar-me-ão mais. E eu preciso aguentar cada um destes dias dolorosos, e saborear a cada um deles, para poder desfrutar dos dias bons que virão."
A casca, que ele chamou de "casco da tartaruga" era sua casa. Aprendera num livro que "[...]a palavra casa não é um lugar. É uma pessoa.". Ele transformou-se em sua própria casa. Isso trazia alguns grandes problemas, como uma postura excessivamente defensiva e um enorme isolamento. Mas, pesando na balança, ele definira que viver na casca era melhor do que mais dor. Dor não. Já não aguentava mais dor. Seu livro favorito, que lia pela quinta vez seguida num intervalo de seis semanas. Suas músicas. Poemas. Suas viagens mentais. Esta era sua casca, e quando foi puxado para fora dela, da pior maneira possível, a dor foi enorme. Não queria mais sair da casca de jeito nenhum.
Naquele dia porém, sua casca estava estranha. Era estava mole e transparente. Ele estava sentindo dor. Era o terceiro dia seguido que isso acontecia. Que o mundo o machucava de modo inclemente. O mundo batia nele. Na noite anterior, dividira seu sofrimento com outra pessoa. Precisava. Estava prestes a explodir. Mal podia saber que tudo podia piorar. Sendo assim, via o mundo mais triste. Não sabia se era realmente o mundo mais triste, ou se era a falta de alegria que ele costumava gerar dentro de si mesmo. E definir isso não era bem uma preocupação.
Naquela praça carregada de História, em vários sentidos, pegou um ônibus. Vazio. Muito vazio. Amava ônibus vazio. Traziam para ele uma sensação de solidão que se aliava a uma sensação de poder. Melhor que andar sozinho para ele, só mesmo andar sozinho junto dela. Olhava pela janela e via a paisagem passando, o mar, as montanhas. Ouvia uma música que escolhera, só para lembrar dela. Apesar de tudo, apesar da dor que sentia, apesar de sua casca que estava frágil, ela ainda era aquilo que mais importava. E pensar nela o deixava feliz.
Desceu do ônibus, rumo a praia. A praia. O mar. O mar exercia sobre ele uma força boa. O mar o restaurava. A água do mar, as ondas, o sol, a areia. Toda vez que estava triste, buscava o mar. Regenerava-o. Iria para a praia de bicicleta. E, naquele dia olhara para cima. Viu a estátua do Cristo Redentor e o Sol. Renderia uma boa foto. Mas não. Vou guardar este momento só pra mim, só na mente, pensara. Subiu na bicicleta, pôs uma música para tocar e saiu. Pedalar era outra coisa que amava. Sentia-se livre sobre uma bicicleta. No meio do caminho, olhou para o lado. Aquele prédio centenário, aquele nome. Agora era parte da sua vida. Uma parte muito importante. Sorriu e seguiu em frente.
Chegou na praia, sentou-se e foi para o mar. "Eu sinto as ondas salgadas chegando/Eu as sinto batendo contra minha pele/E eu sorrio enquanto respiro/Porque sei que nunca vencerão". Mas, quando entrou no mar, percebeu algo errado. A água estava suja. Muito suja. O mar o traíra. Até tu, mar, que sempre confiei, me traiu quando de ti precisei, lamentou.
Voltou para a areia e sentou-se. Precisava fazer algo, e já sabia exatamente o que era. Pegou seu caderno, uma caneta e começou a escrever. Queria muito que ele estivesse ali naquele momento, queria muito que ele um dia pudesse entender tudo o que significava para ele. Escreveu. Transformou todos os seus sonhos em palavras. Escreveu aquele momento como queria que fosse. Foi um longo texto, detalhado, de um jeito diferente do que costumavam ser os textos dele. Mas, escreveu. E, no fim, não leu. Tinha medo, raiva, ou talvez vergonha, sim, vergonha do que queria. Já se machucara tanto na vida que se envergonhava das coisas que ele queria que acontecessem. Sentia dor e vergonha.
Fechou o caderno, olhou de volta para o mar, inspirou e levantou-se. Deu as costas para o mar, saíra de seu refúgio. Voltava para a vida. Caminhava rumo a toda aquela verdade que era obrigado a enfrentar todos os dias. Uma realidade dolorosa. Mas, ele estava fortalecido, suportava a dor e por vezes conseguia até mesmo sorrir. "Sei que este dia vai terminar ruim como todos os outros. Mas, um dia isso tudo vai mudar. Tem que mudar."
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P. S Putz estava com saudade de posta, estou super cheio coisas maluca para compartilhar com vc que ler o seu muleke na net ... Aguarde os novo post. :)
Ate MAis
Sr. N.
